Legado da Rio 2016, 10 anos depois: abandono no Parque dos Atletas contrasta com escola e centros de treinamento ativos
Balanço da primeira Olimpíada da América Latina mostra Parque dos Atletas degradado, Arena Carioca 3 transformada em escola e impasse militar em Deodoro. Veja o que segue aberto.


A dez anos da primeira Olimpíada realizada na América Latina, o balanço do legado da Rio 2016 expõe um Rio de contrastes. De um lado, o Parque dos Atletas, na Barra da Tijuca, abandonado há quase uma década, com lixo, entulho, mato alto e moradores de rua. De outro, a poucos quilômetros dali, o Ginásio Educacional Olímpico Isabel Salgado, instalado na Arena Carioca 3, é apontado como projeto exemplar: trata-se da única instalação olímpica do mundo transformada em escola pública.
O levantamento foi publicado pelo ge.globo na primeira semana de agosto, quando se completam os 10 anos dos Jogos do Rio. A reportagem visitou as principais instalações construídas ou usadas naquele evento e detalhou a situação de cada equipamento. O investimento total da Rio 2016 foi de R$ 43,75 bilhões, sendo R$ 21,52 bilhões de dinheiro público. Só o Parque Olímpico da Barra custou R$ 2,34 bilhões e ocupa 1,18 milhão de metros quadrados.
Parque dos Atletas: o legado que não funcionou
O Parque dos Atletas é o ponto mais problemático do legado olímpico, segundo a reportagem. A área de 150 mil metros quadrados, na Avenida Salvador Allende, foi usada como extensão da Vila Olímpica e espaço de lazer dos atletas. Antes dos Jogos, o local se chamava Cidade do Rock e recebeu três edições do Rock in Rio (2011, 2013 e 2015), com shows de Beyoncé, Rihanna, Elton John e Red Hot Chili Peppers.
Desde o fim da Rio 2016, o espaço foi abandonado e as grades de proteção foram destruídas. A reportagem flagrou carros destruídos, moradias improvisadas de moradores de rua e acúmulo de lixo. Vizinhos relatam que a área é perigosa e quase não recebe visitantes. O parque é uma área particular, mas a Prefeitura do Rio afirmou que não pode revelar o nome do proprietário por causa de uma cláusula de sigilo. O equipamento custou R$ 44 milhões e ficou pronto em 2011.
Arena Carioca 3 virou escola pública de horário integral
No Parque Olímpico, o caminho foi outro. A Arena Carioca 3, que recebeu taekwondo e esgrima nos Jogos, abriga desde fevereiro de 2024 o Ginásio Educacional Olímpico Isabel Salgado. São 875 alunos matriculados em 24 turmas do 1º ao 9º ano, com aulas em horário integral e três refeições por dia. O currículo combina ensino regular com oito modalidades olímpicas, e o espaço conta com 24 salas de aula, duas quadras e áreas esportivas específicas.
As vizinhas Arenas Cariocas 1 e 2 seguem com destinos distintos. A Arena 1, administrada pelo Ministério do Esporte, segue ativa e recebeu em 2026 o Pan-Americano de Taekwondo e o Pan-Americano de Ginástica Artística, com o retorno de Rebeca Andrade às grandes competições. A Arena 2 está sob o Ministério da Educação, em obras para virar um campus do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), com previsão de atender 1.400 estudantes da região de Jacarepaguá.
CT Time Brasil e velódromo: o que segue funcionando
O Parque Aquático Maria Lenk, administrado pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB) até 2048, abriga o Centro de Treinamento Time Brasil, com estrutura para atletas de diversas modalidades, incluindo ginástica e esportes aquáticos. Já o Velódromo Olímpico passa por restauração depois de um incêndio causado por curto-circuito em abril de 2026. O teto ficou parcialmente destruído e o Museu Olímpico, inaugurado em agosto de 2025, está fechado. Antes do incêndio, o local recebia cerca de 4 mil pessoas por mês em 34 modalidades.
Outros equipamentos da Barra seguem em uso. A Arena Olímpica do Rio, hoje Farmasi Arena, é gerida pela GL Events e recebe shows e eventos esportivos. O Parque Rita Lee, aberto de terça a domingo, das 6h às 22h, oferece quadras, skate park, muro de escalada e área de caminhada. O Centro Olímpico de Tênis, com a quadra principal Maria Esther Bueno, segue sob o Ministério do Esporte, mas recebeu poucos eventos desde 2016 e segue sem definição sobre um leilão anunciado em 2021.
Deodoro: impasse entre Exército e Governo Federal mantém arenas fechadas
Na Zona Oeste, o Parque Radical de Deodoro concentra dois legados considerados positivos: o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom e o Centro Olímpico de Ciclismo BMX, ambos abertos a atletas e ao público. O estádio de canoagem, com canal de 250 metros e 25 milhões de litros de água, virou piscina pública gratuita em fins de semana sem competição. A pista de BMX foi reformada e reaberta em janeiro de 2025.
O problema está nas instalações militares vizinhas. Arena da Juventude, Centro Olímpico de Tiro, Centro Olímpico de Hóquei e Centro Nacional de Hipismo estão fechados para atletas civis desde março de 2025. O Exército afirma que o Ministério do Esporte parou de repassar R$ 20,5 milhões anuais para manutenção dos equipamentos; o Governo Federal considera o valor alto. O impasse já dura um ano e meio, e não há previsão de reabertura.
O que ainda falta confirmar
O nome do proprietário do Parque dos Atletas permanece desconhecido, protegido por cláusula de sigilo, e não há informação pública sobre planos de recuperação da área. Também seguem indefinidos os prazos para reabertura das arenas militares de Deodoro e para a inauguração do campus do IFRJ na Arena Carioca 2. No caso do Centro Olímpico de Tênis, não há posição oficial sobre o futuro do equipamento após a tentativa frustrada de uso pelo Rio Open.
Situação das principais instalações olímpicas
| Instalação | Região | Situação em agosto de 2026 |
|---|---|---|
| Parque dos Atletas | Barra da Tijuca | Abandonado, com lixo e ocupações |
| Arena Carioca 3 (GEO Isabel Salgado) | Parque Olímpico | Escola pública com 875 alunos |
| CT Time Brasil (Maria Lenk) | Parque Olímpico | Em uso pelo COB até 2048 |
| Estádio de Canoagem Slalom | Deodoro | Ativo, com uso público aos fins de semana |
| Arena da Juventude | Deodoro | Fechada desde março de 2025 |
Fonte: https://ge.globo.com/olimpiadas/noticia/2026/08/04/de-escola-publica-inedita-a-lixo-e-abandono-o-legado-da-rio-2016-dez-anos-depois.ghtml
Fonte
ge - Globo Esporte Publicação original: 2026-08-04T03:01:01+00:00
Rafael Costa
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