A paixão que não precisa enxergar: a história de Manoel Gomes, torcedor cego do Fortaleza
Morador do Vicente Pinzon, Manoel Gomes perdeu a visão aos 14 anos, mas nunca deixou de vibrar pelo Leão. Ele vai ao Castelão com a família, acompanha os jogos pelo rádio e até criou um hino para o clube.


A bandeira vermelha, azul e branca tremula na porta de uma casa no bairro Vicente Pinzon, em Fortaleza. Ali vive Manoel Gomes, torcedor cego do Fortaleza que transformou a paixão pelo clube em um dos pilares da sua vida. Aos 14 anos ele perdeu completamente a visão, mas isso nunca o impediu de sentir cada gol, cada vitória e cada derrota do Leão.
Manoel nasceu em Beberibe, no litoral leste do Ceará. Por volta dos cinco anos, a professora notou que ele se curvava para ler. A família o levou ao hospital da Polícia Militar em Fortaleza, onde o diagnóstico foi severo: descolamento de retina. A cirurgia foi feita, mas a visão não voltou. Aos 14 anos, como os médicos haviam previsto, ele perdeu completamente o sentido da visão.
Por que importa
“Escolhi o Fortaleza, e o Fortaleza me escolheu. Apesar de eu ser deficiente visual, sou apaixonado por essas cores vermelha, azul e branca. Esse escudo tricolor me deu muita alegria”, disse Manoel em entrevista ao ge. A mãe, Raimunda Gomes, conta que ele sempre foi independente: “Ele sai para todo lugar. Ele é independente. Eu me orgulho, porque não é toda família que tem um deficiente em casa e fica lutando com ele.”
Pontos principais
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Perda da visão | Aos 14 anos, após descolamento de retina |
| Acompanhamento dos jogos | Presencial no Castelão ou pelo rádio do celular |
| Rotina de deslocamento | Ônibus até o terminal e longa caminhada até a Arena |
| Sonho pessoal | Enxergar para poder ir ao estádio sozinho |
Ir ao estádio não é simples. A família pega o ônibus até o terminal e depois enfrenta uma longa caminhada até a Arena Castelão. A irmã, Lilian Gomes, explica o esforço: “É difícil. Quando a gente vai ao Castelão, o ônibus deixa longe. Aí temos que levar ele a pé.” Por medo de confusão, Manoel nunca foi a um Clássico-Rei. “O que tinha que acabar é essa rivalidade. Quando a gente vai ao Castelão, tem aquelas brigas de torcida. Aquilo não fica bom para o torcedor”, afirmou.
Contexto
Quando não pode ir ao estádio, Manoel reúne os amigos em casa e ouve a transmissão pelo rádio do celular. “Gosto muito de ir ao estádio, mas quando não posso, acompanho no rádio do celular. Fico acompanhando aqui, o narrador fala e eu fico ligado no jogo a cada minuto. Quando o Fortaleza pega na bola, eu vou junto com o time”, contou.
A criatividade também é uma marca do torcedor. Ele compôs um hino para o clube, que canta na calçada sob aplausos dos vizinhos: “Levante as mãos para cima, faça L de Leão! Vá mostrando pro Brasil quem manda no Castelão. F é de Fortaleza, L é de Leão. T é de Tricolor e tem glória e tradição.”
Manoel mantém a esperança no acesso do Fortaleza à Série A ainda em 2026. “Já fomos para a Libertadores, fomos vice-campeões da Sul-Americana. O Fortaleza me deu muito orgulho, muitas vitórias. Me deu tristeza também. Quando o time perde, a gente fica triste. Mas esse ano vamos subir”, afirmou. Ele também carrega um cordão de São Francisco no peito e reforça a fé: “Nós temos que acreditar no nosso time. Do mesmo jeito que fomos campeões cearenses, vamos subir.”
O maior sonho, porém, não cabe em campo. “Meu maior sonho todo mundo sabe: é enxergar. Se eu enxergasse eu iria ao estádio sozinho”, finalizou.
Para os leitores do OnlineSportswear, a história de Manoel Gomes é um retrato da torcida que vai além do resultado: ela mostra como o futebol pode ser ferramenta de inclusão, afeto e pertencimento, mesmo diante de barreiras físicas e urbanas. Em um momento em que o Fortaleza busca o retorno à elite, torcedores como ele lembram que a paixão não depende da visão — depende de sentir o jogo.
Fonte: ge – Globo Esporte (https://ge.globo.com/ce/futebol/times/fortaleza/noticia/2026/08/02/conheca-historia-de-manoel-gomes-torcedor-cego-do-fortaleza.ghtml)
Fonte
ge - Globo Esporte Publicação original: 2026-08-02T04:00:15+00:00
Rafael Costa
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