Corinthians pagou R$ 6,9 milhões por programa de sorteios abandonado há dois anos; clube agora investiga
O Corinthians desembolsou quase R$ 7 milhões para a empresa Incentiva, responsável pelo “Fiel da Sorte”, mas o programa não tem divulgação desde abril de 2024 e sequer há confirmação de que os sorteios ocorreram. A atual diretoria rescindiu o contrato e quer indenização.


O Corinthians gastou quase R$ 7 milhões em um programa de sorteios que ficou abandonado por mais de dois anos e cuja prestação de serviços é questionada pela própria diretoria. Reportagem do ge publicada em 30 de julho de 2026 revela que o clube pagou 34 parcelas mensais à Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing Para Empresas LTDA, responsável pelo “Fiel da Sorte”, sem que houvesse divulgação do programa desde abril de 2024. A última autorização da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) para os sorteios venceu em setembro de 2024.
O caso expõe fragilidades na gestão financeira do clube, que enfrenta dívidas com fornecedores e jogadores, e levanta dúvidas sobre a destinação de recursos de sócios do Fiel Torcedor. A seguir, os principais pontos da investigação.
Pontos principais
| Aspecto | Detalhe |
|---|---|
| Valor total pago | R$ 6,9 milhões entre agosto de 2023 e abril de 2026 |
| Período sem divulgação | Desde abril de 2024; nenhuma publicação oficial sobre o programa |
| Situação do contrato | Rescindido pelo Corinthians em junho de 2026; clube pede R$ 3 milhões de indenização |
| Última autorização SPA | Setembro de 2024; desde então, nenhum novo sorteio foi aprovado pelo governo |
Como funcionava o “Fiel da Sorte”
Lançado em junho de 2023, o programa prometia sorteios semanais de prêmios e experiências para os membros do Fiel Torcedor, plano de sócios do Corinthians. Cada associado tinha direito a 12 “rabiscadinhas” digitais por mês – uma espécie de raspadinha virtual. A adesão era gratuita para os sócios. O programa foi divulgado nas redes oficiais do clube e na Neo Química Arena, mas parou de ser mencionado a partir de abril de 2024.
O contrato com a Incentiva previa o pagamento de R$ 3,75 por mês por cada novo sócio que aderisse ao Fiel Torcedor após o início da parceria, em abril de 2023. O valor era fixo, independentemente da categoria do plano (o mais barato custa R$ 14,90). A empresa OneFan, que gerencia o sistema de sócios, repassava mensalmente ao clube o número de adimplentes, e o Corinthians então pagava a Incentiva. Com o aumento de associados, as parcelas cresceram: a primeira foi de R$ 124.488,75 (agosto de 2023), e a última, de R$ 343.522,50 (abril de 2026).
Três presidentes, um contrato sem supervisão
O acordo foi fechado na gestão de Duilio Monteiro Alves, que justificou o programa como uma forma de gerar novas receitas com a venda de planos e criar conteúdo exclusivo para o aplicativo Universo SCCP. O sucessor Augusto Melo (2024 a maio de 2025) afirmou ao ge que nem sabia da existência do contrato. A atual gestão, de Osmar Stabile, rescindiu o vínculo em junho de 2026, alegando descumprimento de obrigações pela Incentiva.
A diretoria atual também informou que os pagamentos feitos a partir de junho de 2025 respeitaram os trâmites legais e contábeis do clube. O ge apurou que o Corinthians se manteve em dia com a Incentiva até abril de 2026, quando suspendeu os repasses. O clube agora quer uma indenização de R$ 3 milhões pelo fim antecipado do contrato, que tinha validade até 2028.
O que a Incentiva diz
A Incentiva, por meio de seu advogado, afirma que não foi notificada oficialmente da rescisão e que a campanha “se manteve operacional com entregas até o final de maio de 2026”. Questionada sobre como poderia realizar sorteios sem autorização da SPA, a empresa disse que os prêmios podem ter sido “promoções para fidelização de sócios” e não sorteios propriamente ditos. A empresa também alega que a falta de divulgação do programa era responsabilidade do clube, que teria trocado a equipe de marketing.
A Incentiva tem o Corinthians como único cliente, capital social de R$ 50 mil e passou por três mudanças de sócios desde 2021. O atual dono, João Augusto de Queiroga Vanderley, mora em Alagoas, e a sede da empresa fica em Santana de Parnaíba (SP). Desde que ele comprou a empresa, em setembro de 2024, nenhuma nova autorização de sorteio foi obtida junto ao governo.
Impacto para o torcedor e próximos passos
O caso preocupa os mais de 100 mil sócios do Fiel Torcedor, que pagam mensalidades e tinham o direito de participar dos sorteios. Não há confirmação independente de que os prêmios foram efetivamente entregues. O Corinthians pediu ajuda à OneFan para verificar se os sorteados receberam os itens, mas a empresa não tem esse controle – ele ficava com a Incentiva.
A atual diretoria cogita solicitar uma perícia judicial para avaliar o ressarcimento. As duas últimas notas fiscais da Incentiva não foram pagas, e todas as referências ao “Fiel da Sorte” foram removidas do aplicativo Universo SCCP e dos materiais oficiais.
O caso expõe a necessidade de maior transparência na gestão de programas de fidelidade e de contratos com terceiros em clubes de futebol. Para o torcedor, fica a dúvida sobre o destino dos R$ 6,9 milhões e sobre a real entrega dos benefícios prometidos.
Fonte: ge – Globo Esporte (https://ge.globo.com/futebol/times/corinthians/noticia/2026/07/30/rabiscadinhas-corinthians-pagou-r-69-milhoes-por-sorteios-mas-nao-sabe-se-eles-foram-feitos.ghtml)
Fonte
ge - Globo Esporte Publicação original: 2026-07-30T14:00:08+00:00
Rafael Costa
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